a noite chegou bordada de imagens
dentro dos olhos
na autonomia mais tempestuosa
como se a liberdade negada a algumas pessoas fosse
um destino de réu da inquisição
ela caminha com as mãos às costas
olhando o chão como quem procura
talvez uma alegria
talvez um bom motivo de viver
como por exemplo seu gosto por comida
ora interdito
pelas janelas da casa voaram mais que cortinas
e há silêncios guardados nos armários
onde antes se guardavam remédios fechados à chave
com o cuidado de quem cultiva vírus num laboratório
enquanto as crianças brincam no quintal
uma cintilação de mar ao longe
pode ser vista entre os cascos de navios
e barcos de regata
o homem do cais puxando suas cordas
bronzeado de dar inveja
fotógrafos procurando os ângulos melhores
bem além do varal onde esqueceram uma saia
há um ventilador parado no canto de um dos quartos
porque fazia frio como agora
e as cores são paredes cor de sombra
enquanto falta o sol
e todos os brinquedos nas estantes cantam à capela
um adágio desencontrado
sem esperar um terceiro movimento
no aquário de onde um peixe vermelho escureceu









