Segunda-feira, Dezembro 14, 2009

adágio






Marc Chagall. Le coq blanc et les deux aimants.
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a noite chegou bordada de imagens
dentro dos olhos
na autonomia mais tempestuosa
como se a liberdade negada a algumas pessoas fosse
um destino de réu da inquisição

ela caminha com as mãos às costas
olhando o chão como quem procura
talvez uma alegria
talvez um bom motivo de viver
como por exemplo seu gosto por comida
ora interdito

pelas janelas da casa voaram mais que cortinas
e há silêncios guardados nos armários
onde antes se guardavam remédios fechados à chave
com o cuidado de quem cultiva vírus num laboratório
enquanto as crianças brincam no quintal

uma cintilação de mar ao longe
pode ser vista entre os cascos de navios
e barcos de regata
o homem do cais puxando suas cordas
bronzeado de dar inveja
fotógrafos procurando os ângulos melhores
bem além do varal onde esqueceram uma saia

há um ventilador parado no canto de um dos quartos
porque fazia frio como agora
e as cores são paredes cor de sombra
enquanto falta o sol
e todos os brinquedos nas estantes cantam à capela
um adágio desencontrado
sem esperar um terceiro movimento
no aquário de onde um peixe vermelho escureceu

Sexta-feira, Dezembro 11, 2009

tomada externa








corte no espaço
a rua é uma corola
ao sol do meio-dia

tomada externa sem closes
a solidão
protagoniza a cena



Domingo, Dezembro 06, 2009

os párias

Todo anjo é terrível
Rainer Maria Rilke




Foto Rogério Reis



os anjos da cidade vêm da esquina
de praças e barrancos
surgem do chão de surpresa
já sem asas
estão nos botequins
dormem pelos bancos e calçadas

sofrem de fome em bandos
sem ter aonde levar
seu cheiro e
sua revolta

os anjos da cidade nos sitiam
deuses sem brilho
feitos de folhas secas e unhas
são flébeis e nos
avisam com os olhos fugidios
:
o inimigo vem de qualquer lado

às vezes velam os que
por suas mãos
restaram mortos e
riem
diante desses anjos desfolhados

um anjo desossado ingressa às vezes no sangue de quem passa
e deita em suas horas e adormece
de um sono escuro opaco de lembranças

os párias da cidade todo dia
geram outros anjos feitos
de fumo e cocaína e cola e craque

Segunda-feira, Novembro 30, 2009

modus operandi

aqui cabem amor esquecimento
e tudo mais que a vida acondicione
cabe a mochila das férias
e mais o crime
o medo
o espanto e a coorte dos desejos

cabe o perdão aqui
contanto que as articulações sejam poupadas
e cabe mais uma vontade imensa
obstinada
de pétalas se abrindo

Sexta-feira, Novembro 27, 2009

à semelhança



diante do muro
janela sem paisagem

nem rua mar ou céu
imagina um corpo aceso

que toda tarde escorrega
no dorso do horizonte


janela sem estrelas
projeta o mundo no muro
e um dia

quase chegou a Deus

voando sobre imagens

à semelhança do mundo

Quarta-feira, Novembro 25, 2009

...





as agulhas dos morcegos
costuram a noite à terra
(é preciso dormir
sem espinhos nas mãos)

ele navega solto
pelo navio do quarto
ancorado no porão
da madrugada

raízes e memórias
dormem junto
em camas separadas

toda manhã a estrada troca
seus lençóis
sujos de sombra

Domingo, Novembro 22, 2009

fugitivo

nos tempos de fuga dormia sobre a terra
clareira de folhas secas à espera
olhos rondam a terra e se confundem nas folhas que podem ser sombras silhuetas mãos armadas da gestapo e porque tem medo pouco dorme ou dorme de olhos abertos assustando quem passa por acaso pelo parque

e mesmo atrás das moitas de folhagens os olhos dele brilham no escuro e há mais alguém atrás das moitas – não conhece esse corpo que ocupa tanto espaço não conhece essa boca que mal consegue ver na semiescuridão porque parte do rosto está coberta por um capuz
é preciso aproveitar a noite quente de julho vestido em um sobretudo encontrado no fim de sua rua depois que os tanques passaram

os tanques não têm música fazem tudo tremer sem dança e não há pássaros nem árvores tranquilas depois deles não há janelas de ver a rua mas olhos vazios paredes assustadas

uma noite sonhou com o mar